Entrevista a Zoë (26 Outubro 2004)
Quem reponde há entrevista?
Rui Pintado, Guitarrista
Porquê que são os zoë?
Porque a música é para nós uma actividade a full time, e os Zoë são o nosso cantinho onde podemos criar e libertar daquilo que é o nosso dia a dia onde trabalhamos para outros projectos e para outras pessoas. Nos Zoë trabalhamos para nós
A fonética do nome em alguma parte da vossa carreira vos fez pensar em mudar de nome?
Já por várias vezes fomos dando conta que a fonética do nosso nome causa alguns problemas. No entanto, não pensamos que sejam suficientemente graves para nos levar à mudança de nome. Se calhar estamos enganados, mas...
David Lynch é uma influência para poderem fazer música?
Os ambientes do David Lynch atraem-nos e inspiram-nos, provavelmente isso reconhece-se na nossa música de uma forma mais clara do que eventualmente nós até podemos pensar
Qual é a vossa discografia?
Para além de algumas colectâneas onde participamos, editamos em 2001 (edição de autor) o CD EP “Songs from the borderline”, em 2002 (edição de autor) o álbum “Synth-o-matic” e em 2004 o single “carry on” que foi também incluído na colectânea do Divergencias.com. Vai saír agora na colectânea do Termómetro Unplugged o tema “Trip in the fire”, já com a colaboração do vocalista Kiko, já que desde o início deste ano, os Zoë são um trio, depois da saída do vocalista
Como correu a experiência de "Synth-o-matic"?
A experiência Synth-o.-matic tem vários níveis. Ao nível de criar um registo foi óptimo, quer a composição quer o registo em si, quer a convivência com os músicos que vieram trabalhar nos nossos temas, aliás ainda hoje fico surpreendido da forma desinteressada e intensa com que nomes como Carlos Azevedo, Pedro Guedes, Rui Teixeira, Pancho e outros aceitaram participar no nosso disco e ainda algumas vezes Live. Fez-me perceber, que pelo menos musicalmente, estávamos no caminho certo, já que estas pessoas são referencias nacionais, verdadeiros monstros, com uma sensibilidade musical completamente fora do normal e que desta forma avalizaram musicalmente o nosso trabalho. Para mim pessoalmente, foi o melhor e o maior elogio ao nosso percurso.
Em termos Live, Synth-o-matic, foi também a afirmação de uma consistência musical que procurávamos, e que foi crescendo de concerto para concerto até atingir um nível que nos começou a satisfazer, não por completo, queremos mais, mas pelo menos de uma forma que consideramos positiva.
Financeiramente, e isto porque os Zoë são responsáveis por todas as despesas, Synth-o-matic foi um verdadeiro desastre e que ainda esta em aberto
Surpreendeu-vos a aceitação do público ou estavam há espera de mais?
De vez em quando ainda somos surpreendidos, porque há pessoas que vão dizendo que gostam ou viram e gostaram ou porque ainda passa na rádio. No entanto pensamos que os zoë ainda não passaram para as massas, o que não nos surpreende já que temos consciência do difícil que é divulgar um produto novo sem massivas acções de marketing e publicidade. Como não tínhamos orçamento para essas actividades, nunca esperamos muito mais do que o que conseguimos.
Qual foi o melhor (ou seja qualidade não quantidade) palco a que levaram "Synth-o-matic"?
É difícil dizer. Os zoë já passaram por alguns dos palcos mais emblemáticos do país, e essas experiências são sempre extraordinárias, no entanto muitas vezes no interior, em pequenos auditórios, ou em pequenos recintos, atinge-se um nível de cumplicidade com o público que deixa marcas quer em nós quer em quem assisti. Para além disso, um grande festival ou numa queima das fitas, uma banda como os zoë, independente e em inicio de carreira, é apenas mais um dos nomes do alinhamento o que acaba por nos relegar para um segundo ou terceiro plano, enquanto que na Guarda ou em Mondim de Bastos as pessoas estão a ver os zoë, não os Air ou o Gabriel Pensador. São realidades diferentes com vantagens e desvantagens...
Têm a noção que o álbum "Synth-o-matic" marcou o panorama musical português?
Nós pensamos que os zoë não têm dimensão para poderem aspirar a “marcar o panorama musical português”. Até porque isso também nunca foi objectivo. Com certeza ajudamos a engrossar as fileiras dos músicos nacionais que não se conformam com a gaveta a que são atirados por alguns A&Rs, jornalistas e outros. Se alguém aprendeu algo com a nossa experiência, ainda bem, mas daí a sermos referencia penso que é um salto demasiado grande para aquilo que na realidade atingimos.
E que, de alguma forma irá marcar para sempre a vossa carreira?
Claro que marcou a nossa carreira, foi o primeiro e depois ainda não temos outro. Penso que o primeiro disco dos prime se chamava “Combined Efforts”, e penso que é um excelente nome para qualquer edição de autor, já que um disco só sai assim com a combinação de esforços de toda a gente. O caso de “synth-o-matic”, é também um “Combined Efforts” e isso é raro e portanto marcante.
Surprendeu-vos o facto da multinacinal Fanc querer vender o vosso cd?
Foi uma agradável surpresa e que caiu que nem “ginjas”. A Fnac, depois de ouvir o nosso ep “Songs From The Borderline” e sem ouvir “synth-o-matic”, para alem de nos ter comprado cds, investiu em publicidade em alguma imprensa nacional o que de outra forma nunca iria acontecer por não termos orçamento. Foi extraordinário, tudo resultou de acção de uma pessoa, Imma Turbau, que entrou para os nossos corações de imediato.
Despois de "Synth-o-matic" as pessoas têm o direito de exigir ainda mais?
Claro que sim, “synth-o-matic” foi o primeiro e não a master piece, essa há-de vir. À medida que vamos crescendo como músicos, como compositores e como indivíduos cada vez sentimos mais que “synth-o-matic” faz parte do caminho. Nós próprios exigimos mais e quem gosta do nosso trabalho poderá também exigir mais.
Estão a pensar editarem algum álbum pela La Folie (editora Gift) ou ficaram só pelos elogios (dos Gift) que são públicos e notórios?
Os Gift são os maiores. Partiram tudo, têm lições para dar a muita gente. Admiramos muito a sua capacidade e concretização, temos ainda a sorte de gostarem de nós e de terem uma atenção muito especial para as nossas actividades. Sentimos isso como enorme privilégio. Em relação à La Folie, nunca existiram coisas concretas, é sempre uma hipótese em aberto mas não existe sequer uma agenda.
Qual e quando vai aparecer o sucessor de "Synth-o-matic"?
Os Zoë estão numa situação ingrata (???). se por um lado temos já material para um novo registo, por outro, não temos situação financeira para passar para a acção, isto porque continuamos a contar só connosco, já que não existe qualquer demonstração de interesse por parte de nenhuma editora.
O que mais se pode dizer em relação a esse novo registo?
O novo material que estamos a compor é marcado por algumas opções técnicas que transformam ligeiramente a sonoridade da banda, nomeadamente, e ao contrário do que fizemos até agora, estamos a utilizar baquetas, em oposição às planantes e intimistas vassouras, e também estamos a usar baixo em alguns temas coisa que ainda não tínhamos feito já que utilizamos sempre o contrabaixo. Ainda a acrescentar o facto de termos ficado um trio após a saída do vocalista no início deste ano, o que nos levou a colaborar com várias vozes nos concertos que fizemos e que com certeza serão nomes que irão figurar no nosso próximo registo. A saber: Susana Baldaque, que já tinha gravado em “synth-o-matic”, Kiko (www.kikojazz.net) e Carla Oliveira (3Angle).
Irá ter convidados como no "Synth-o-matic"?
Como disse atrás, os músicos que participaram no nosso som até agora são mais valias de extrema importância, para alem de que a partilha de experiências musicas é algo que nos atrai de sobre maneira.
Vai ser uma edição de autor ou terá o selo de um editora?
Até ao momento não temos qualquer contacto ou manifestação de interesse por parte de ninguém, não porque nos andamos a esconder, mas sim porque nos parece que o nosso trabalho não suscita qualquer interesse comercial das editoras. A manter-se esta situação, o próximo disco será novamente edição de autor.
O cd vai ser uma aposta no mercado nacional ou é legitimo apostarem no mercado estrangeiro?
O mercado internacional é muito apelativo, no entanto, a quantidade de propostas com elevado nível qualitativo proveniente de vários mercados europeus e americanos diminui as nossas hipóteses de levar a bom porto as nossas intenções. É importante ser realista, ir trabalhando nesse sentido, mas continuar a pensar que é necessário atingir uma coerência e uma consistência de excepção para que, apesar das deficiências ao nível da estrutura, que são evidentes quando comparada com as máquinas internacionais, a qualidade artística se imponha por si. E isso é sem dúvida um processo de longo prazo
Qual vai ser a estratégia de divulgação deste novo registo?
Nós pensamos que os cds deixaram de ser um produto comercial e se tornaram “cartões de apresentação” do trabalho de uma banda. É desta forma que encaramos uma edição de autor, artisticamente fazemos as coisas da forma que acreditamos, tecnicamente damos tudo. Surge-nos portanto como natural passar o trabalho às pessoas que possam estar interessadas. A promoção de “synth-o-matic” passou muito por esta atitude do passar em mão. Conseguir algum apoio da imprensa é também importante e este foi um ponto em que “synth-o-matic” funcionou bem de acordo com as nossas expectativas.
Contem-nos algo de cómico que se tenha passado com vocês por exemplo num concerto?
Aconteceu-nos uma vez fazer tipo 300km para ir tocar, chegar lá e em 3 minutos perceber que havia “micro pró bombo” e “micro prá caixa”, só que era o mesmo, e não havia mais e que as luzes eram o reflexo da lua em vários cds pendurados no palco. Passados esses 3 minutos, trocamos olhares, fui falar com o responsável, disse-lhe que íamos lanchar e já voltávamos, e nunca mais aparecemos.
O que podem contar
num futuro próximo os vossos fans?
Temos o “Trip in the fire” agora a sair
com o Kiko, e sobretudo muita paixão e empenho em tudo o que for uma actividade
da banda.